Especial

Acordar na Rua do Mundo Luiza Neto Jorge, memória de um Tempo

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10 a 10 Maio | Bartô

Acordar na  Rua do Mundo  L...

 Luiza Neto Jorge nasceu em Lisboa a 10 de Maio de 1939 - o touro, no mês astrológico de Maio, a rir-se havia de escrever). Mora antes no chamado Bairro das Colónias, com o pai (já divorciado da mãe), e após a morte desse, com a mãe e o irmão, na Rua da Misericórdia (a antiga Rua do Mundo, a mesma de «Acordar na Rua do Mundo»), sofre de asma /de alma, como dirá: e os problemas respiratórios acompanham-na ao longo da sua vida breve. Ingressa na Faculdade de Letras, que abandona em 1961, para ir leccionar em Faro, e o Algarve é outro pólo fundamental de uma espécie de «poética da amizade» que partilhará com toda uma geração. Na Faculdade de Letras de Lisboa dar-se-á o encontro decisivo com os companheiros de Poesia 61, mas também com o seu primeiro marido, o poeta António Barahona. Viajará para Paris, fundamental e liberatória estadia: note-se que as datas confirmam que a maior parte da sua poesia nasce durante esses anos; talentosa -ou mesmo genial - como tradutora, porventura a maior tradutora portuguesa do francês da segunda metade do século XX, até os casos de evidente trans-criação e re-criação; manterá uma relação especial com outros âmbitos da criação, que vale a pena recordar: Cinema, como guionista para filmes de Alberto Seixas Santos, Paulo Rocha e Solveig Nordlund); Teatro, com a tradução ou a adaptação de inúmeras peças, nomeadamente para o Teatro da Graça, para o Teatro da Cornucópia, ou para os encenadores Mário Feliciano -A Casa de Bernarda Alba de García Lorca, para o Teatro Nacional - e Osório Mateus - para o espectáculo O Fatalista de Diderot. Foi artista amadora, mas talentosa, quer no domínio do desenho quer no domínio da cerâmica. Sua é a capa do seu primeiro livro, A Noite Vertebrada (1960), assim como a de O Aquário (1959), de Fiama Hasse Pais Brandão. Esta relação texto/imagem que marcou toda uma geração (Poesia 61 e Po.Ex., via surrealismo e via vanguardas) será desenvolvida pela autora na sua colaboração com cineastas, pintores (nomeadamente Jorge Martins) e, finalmente, na sua única contribuição directa ao movimento Po.Ex., o poema a primeira pessoa/ do singular/ do presente do/ indicativo do/ verbo reflexo/ encontrar-se, texto dactilografado, com desenhos e pequenas colagens, «composto» em Paris em 1964 e publicado no caderno antológico Poesia Experimental 2, de 1966. De regresso a Portugal, viverá sobretudo de tradução (entretanto casa com Manuel João Gomes), optando por uma quase abdicação da escrita, embora, quer na tradução, quer na colaboração com encenadores e realizadores, ela continue viva e experimente, aliás, novas vertentes: a escassez da vida e da obra são, aliás, evidente e indirectamente proporcionais à sua própria densidade. Luís Miguel Cintra recorda a sua presença, a última recordação dela, no fim do espectáculo Grande Paz, chorando e incapaz de sair da sala. Desse espectáculo retirará a epígrafe de um poema de A Lume, uma frase do próprio Luís Miguel: O fogo há-de queimar-nos a todos, público e actores, ao mesmo tempo. Entendemos que não haja mais sublime combustão.

 

Manuele Masini, Lisboa, Santa Engrácia, Maio de 2017.

 

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O Bartô a par com a sua programação noturna é também durante o dia, sala de aula e Biblioteca,  transformando-se de Centro de Documentação Luiza Neto Jorge, em espaço expositivo para artistas plásticos. 

Um lugar multidisciplinar enquadrado no grande projeto Chapitô, cuja dinâmica única na cidade de Lisboa manifestam um propósito artístico e social que faz História e Futuro para o Mundo.

A poeta, tradutora e argumentista Luiza Neto Jorge  faria 78 anos no dia 10 de Maio. Vamos celebrar esta data com o visionamento de uma montagem de documentos raros e inéditos pertencentes ao espólio da autora sobre a sua vida e obra (áudio-vídeo, fotografias, desenhos...); seguir-se-ão leituras da sua poesia pela voz de, entre outros, Luís Miguel Cintra, Luís Lima Barreto, Diogo Dória, Dinis Neto, Teresa Coutinho, Fernando Cabral Martins e Luis Manuel Gaspar um momento de conversa com a presença de alguns companheiros de vida e de poesia da Luiza com algumas surpresas. 

Luiza Neto Jorge, grande amiga de Teresa Ricou, com toda a cumplicidade intelectual e artística, ajudou a pensar e organizar este espaço de encontro e tertúlia, onde a palavra dita o nosso pensamento e firma a amizade entre todos, Agostinho da Silva, Zeca Afonso, Maria Ulrich, Lagoa Henriques, Seixas Santos, Fátima Vaz, Lena Lapas, David Evans, Jorge Martins, José Escada, Júlio pomar, Manuel Baptista entre tantos outros.

Luiza de uma forma muito generosa ofereceu alguns dos livros para o nosso acervo.

A poeta pertence à História da Literatura portuguesa e à história do Chapitô. Há que relembrar a sua poesia e contextualizar a sua obra.

Vamos redescobrir esta personalidade de referência literária e apurado humor, que pertence a uma geração de inquietos construtores.

Carolina Vasconcelos Lapa

 

 

Direcção artística: Teresa Ricou

Coordenação do Centro de Documentação Luiza Neto Jorge: Carolina Vasconcelos

Produção da Noite: Paulo César

Comunicação: Ana Campos

Design Gráfico: Sílvio Rosado

Audiovisuais: Simão Anahory

Técnico de Luz e Som: Artur Miguel

 

Especial agradecimento a Manuele Masini

Um abraço ao Dinis Neto Jorge